Quando fala o coração…Por que ninguém é feliz para sempre?

avó

Por que ninguém é feliz para sempre?
Marco Antonio Spinelli

– Vó?
– Oi?
– O que acontece depois do “Felizes para Sempre”?

A avó até se ajeitou na cadeira. Já sabia o que acontecia quando aquelas perguntas começavam.
– Como é que você falou, meu bem?
– O que acontece depois do “Felizes para Sempre” das estorinhas? A princesa encontra o príncipe e vivem felizes-para-sempre…, termina sempre assim… Por que eu não vejo ninguém ser feliz para sempre, então?

Ai, ai, ai, pensou a avó.

– Sabe minha querida, tem uma tribo antiga de índios, lá no Novo México, que não acredita na passagem do tempo.

Fez menção de perguntar o que aquilo tinha a ver com a sua pergunta, mas a avó colocou a mão na sua boca, como se dissesse, espera.

– Esses índios acreditam que existem apenas dois mundos: O mundo das coisas visíveis e o mundo das coisas invisíveis.
– No mundo das coisas visíveis, encontramos o que construímos: a casa, o carro, esse tricô aqui que você sempre interrompe…
– E no mundo das coisas invisíveis?
– No mundo das coisas invisíveis, encontramos tudo o que não transformamos em realidade: os sonhos, as idéias, as dificuldades, tudo o que ainda está lá, para ser realizado e que a gente sempre deixa para depois… Depois eu vou estudar, depois eu vou tentar, depois eu vou fazer meu sonho se tornar realidade… As pessoas sempre esperam pelo futuro, a época em que serão “felizes para sempre”…

– E os índios?
– Bem, eles são mais espertos e mais avançados do que nós…  Como eles não acreditam no tempo, então não acreditam também no futuro, e se não acreditam no futuro, não passam a vida inteira esperando por ele.

A menina acendeu aquele vasto sorriso, que usava sempre que as estorinhas da vovó clareavam as suas dúvidas.

– O que eles fazem então?
– Acho que eles tratam de serem felizes todo dia.
– Mas eles não têm coisas chatas para fazer?
– Que coisas chatas?
– Essas que a gente faz todo dia: arrumar a cama, fazer lição de casa, arrumar a casa, comer verduras…
– Lógico que fazem.
– Como é que podem ir para escola se não acreditam no futuro? Meu pai sempre fala que trabalha e fica mal humorado para que a família tenha “um futuro melhor”… Que temos que estudar para termos “um futuro melhor”…
– E o futuro fica mesmo melhor?
– Não sei, ele não chegou ainda…

Riram gostosamente.

– Sabe, querida, o que esses índios acham, é que a felicidade, o “felizes para sempre” só existe nessa passagem, das coisas irrealizadas para as coisas realizadas. Esse é um modelo mais bacana de felicidade: é como se a felicidade fosse um quebra-cabeça que a gente monta todo dia… Só que é um quebra cabeças diferente.
– Como ele é?
– Ele é feito todo dia, com coisas que a gente consegue realizar… as peças são invisíveis, e gente deve procurar por cada uma delas até encontrar. Aí a gente traz as coisas do mundo invisível para o mundo realizado. É como uma oficina. Uma Oficina de Felicidade.

Finalmente, a pergunta mais difícil:

– Você é feliz, vovó? Sorriu, suavemente.
– Sou minha querida.
– Mesmo sendo sozinha?
– Mas eu não sou sozinha. Eu tenho você, sua mãe, e uma porção de gente no meu coração, querida. Nunca estou sozinha.
– Quando eu ficar velhinha, eu vou ser feliz, então?
– Não, meu bem. Quando você ficar criança é que vai ser feliz.
– Mas eu já sou criança.
– Então, não se esqueça de ser criança quando você crescer, tá bom?
– Combinado.
– Então vai brincar de construir felicidade, vai…

Não precisou falar duas vezes.
Saiu correndo brincar.
E a avó continuou trançando, em seu tricô, a delicada trama da vida.

4 comentários Adicione o seu

  1. Maria Helena disse:

    Linda história, Claudia!
    Obrigada por me ajudar a voltar minha atenção para o presente!
    Tenham um final de semana iluminadíssimo!Beijos! =)

    1. Claudia Michepud Rizzo disse:

      Olá Maria Helena!
      Já estava com saudades! rsrsrs
      Agradeço o seu carinho!
      Muita luz, sempre!
      Lindo final de semana!
      Aloha

  2. Cida disse:

    Bom dia Claudia,

    amei estas palavras edificantes e que só tem a somar com o que temos de bom e tornar a vida cada vez melhor com seus temas maravilhosos.

    Grata

    Cida

    1. Claudia Michepud Rizzo disse:

      Bom dia Cida!!
      Esse conto é lindo… Nos faz parar para pensar, não é mesmo?
      Linda semana para vc!
      Muita luz, sempre!
      Aloha

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