Um pouco de antroposofia…

antroposofia

O texto abaixo, é um artigo retirado da Revista Vida Simples (escrito por Aline Salve) que fala sobre a antroposofia, o seu significado e a sua forma de ver o mundo e as pessoas. É um texto longo, mas vale a pena conhecer mais sobre este assunto.

A antroposofia está fascinando muitos brasileiros. Pelo menos 700 médicos utilizam-se de seus princípios, recorrendo a chás e outras receitas caseiras e evitando o excesso de medicamentos. E já há 13 escolas, disputadíssimas, nas quais as crianças aprendem primeiro a viver a vida, envolvidas em atividades realmente infantis, em vez de serem preparadas precocemente para o mercado de trabalho. Existe também um grande laboratório (Weleda), que fabrica remédios, chás e cosméticos naturais, uma editora (Antroposófica), com dezenas de títulos publicados, e até o luxo de uma rede de produtores agrícolas biodinâmicos, que fornece queijos, iogurtes, pães, verduras e frutas de qualidade muito especial. 
Criada no começo do século XX pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), essa ciência humanista vem sendo aplicada mundialmente em áreas tão diversas como medicina, educação, agricultura, economia, farmacologia, teatro e artes plásticas, organização social e espiritualidade. Ao pé da letra, trata do conhecimento (sofia, no grego) sobre o ser humano (antropos). 

Seu princípio fundamental é a conexão entre o homem, a natureza e o sagrado, que se manifesta em todos os fenômenos, em nível interno e externo, anímico e material. A antroposofia acredita que é preciso desenvolver o homem integralmente, considerando sua alimentação, moradia, relacionamentos sociais e econômicos, bem como sua formação intelectual e sua espiritualidade. Um rio de obviedades, com as quais a maioria de nós concorda perfeitamente. A diferença é que os seguidores da antroposofia não apenas concordam como agem de acordo, na contracorrente, mostrando que é possível compor e manter uma sociedade alternativa mesmo dentro das grandes cidades. 

Até a década passada, antroposofia era “coisa de alemão”. Em São Paulo, ficava restrita à Escola Waldorf Rudolf Steiner, inaugurada em 1956, e à pequena comunidade que se reunia para o ato de consagração dominical – uma missa comovente baseada no Cristianismo primitivo, onde se comunga pão e vinho e se fala com naturalidade sobre a presença dos anjos na vida cotidiana. 

Também criada no final dos anos 50, a Clínica Tobias recebia clientes para toda a sorte de terapias, abrigando consultórios de médicos especialistas, instruídos pelos ensinamentos deixados por Steiner 40 anos antes. Aos poucos, as curas com base em boa alimentação, tratamentos naturais, massagens, música, expressão artística e outras técnicas incomuns ganharam fama por aqui. 

No começo, as consultas pareciam meio estranhas. Podia-se sair dali com a receita de um escalda-pés ou uma série de lavagens intestinais. Aconselhava-se a manter os pés quentes e, no inverno, usar chapéu – nossas sábias avós diziam a mesma coisa. Numa época em que ninguém falava de energia vital, os médicos antroposóficos procuravam equilibrá-la com a utilização de sons e gestos corporais, numa técnica chamada euritmia curativa. E, em vez de remédios sintéticos, recomendavam comida boa, massagens, chás e aconchego. 

Médicos, dentistas e terapeutas passaram a procurar os cursos de especialização promovidos pela Sociedade de Medicina Antroposófica. Queriam ampliar seu conceito de medicina, para tratar o corpo físico levando em conta a força vital, os sentimentos, as emoções e a espiritualidade de cada um – os alicerces da antroposofia, que, em muito, se assemelha a outras sabedorias orientais e mesmo à de sociedades primitivas. 

Steiner, formado em Ciências Exatas e editor das idéias científicas de Goethe – sim, o poeta e escritor alemão do século XIX, que era também um arguto observador da natureza -, jamais abandonou o rigor nas suas pesquisas. “Ele não queria destruir a ciência, só ampliá-la”, explica Valdemar Setzer, professor do Instituto de Matemática da Universidade de São Paulo (USP) e um dos responsáveis pelo curso Introdução à Antroposofia, da Sociedade Brasileira de Antroposofia. “Steiner sabia que não existe apenas o mundo físico e que a cura envolve também os campos bio-energéticos mais sutis do ser humano.” 

Diz-se de Rudolf Steiner que podia observar nas pessoas a energia que as cercava e permeava. Essa energia, segundo ele, era diferente de acordo com a natureza dos sentimentos e das emoções. E turvava-se no caso de doenças que ainda não haviam se manifestado no corpo físico. 

Os quatro corpos
Durante alguns anos, Steiner esteve ligado à teosofia, sistema espiritual e filosófico que dividia os campos energéticos do homem em quatro diferentes corpos. Para os teosóficos, o corpo físico, considerado o primeiro corpo, é apenas a parte mais densa, material e visível dos outros três, feitos de substâncias mais finas, invisíveis aos olhos e não detectáveis por qualquer método ou aparelho científico. O segundo corpo é uma espécie de campo de força vital, chamado corpo etérico ou campo plasmador de energia. O terceiro corpo, que registra todas as sensações, emoções e sentimentos, é chamado de corpo astral, porque acredita-se que possa receber influência direta dos astros e de energias cósmicas. O quarto corpo, ou corpo espiritual, é onde se formam os conceitos e a noção da própria individualidade. Sua gestação é estimulada por meio de meditação, oração e comunhão, entre outras práticas. 
Estava claro para Steiner que a medicina não poderia ignorar a existência desses quatro corpos. Muito menos a educação. Ele dizia que a formação de cada um dos corpos acontecia aos poucos, em períodos definidos de sete anos, e que esse ciclo deveria ser respeitado. A atividade física e motora, assim como a estimulação dos sentidos, são muito importantes no período de formação do corpo etérico, relacionado à força vital. O ensino de artes plásticas é essencial na formação do corpo astral, ligado às emoções e sentimentos. 

Em 1919, Steiner começou a pôr em prática seus inumeráveis conhecimentos teóricos em Stuttgart, na Alemanha. Trabalhando numa escolinha para os funcionários da fábrica de cigarros Waldorf-Astoria (daí a origem do “Waldorf” como sinônimo de antroposofia), ele pôde aplicar o que intuitivamente sabia e o que tinha aprendido. O resultado surpreende ainda hoje e talvez como nunca. O impulso à criatividade e à autonomia, o amor à natureza e às artes, a prática da meditação e o conhecimento espiritual estão se transformando no projeto de vida de mais e mais pessoas, aqui e em todo o mundo.

Arquitetura orgânica 
A saudável bagunça que pode existir na casa de uma família antroposófica causaria arrepios em um consultor de Feng Shui. Mas, nesse ambiente, graças a Deus, as pessoas vêm em primeiro lugar. Depois, sim, consideram-se os móveis, a decoração e a ordem. Os sofás serão mais macios e confortáveis do que propriamente bonitos. A madeira estará muito presente nos móveis sólidos e pesados – em geral, feitos em marcenarias de pessoas que seguem a linha de pensamento Waldorf – e as cores das paredes lembrarão as tonalidades da terra: bege, ocre, marrom, creme, caramelo.

Quem sabe, virá da cozinha o cheiro do pão feito na hora. E se houver crianças na família, provavelmente você encontrará bichinhos de madeira ou bonequinhas de pano pelo chão. Em suma, uma casa sem frescuras, onde qualquer um entra e fica à vontade. “Temos muito respeito pela liberdade e pela individualidade de cada um”, diz Ana Vieira Pereira, de Botucatu, interior de São Paulo, professora de literatura, mãe de quatro filhos, e moradora da casa que você acaba de visitar. 

Habituados a ângulos e linhas retas, nossos olhos reagem dançando num primeiro contato com a arquitetura antroposófica. Assim como no espanhol Gaudí ou no americano Frank Lloyd Wright, incorporam-se formas orgânicas e naturais, mas considerando ainda os aspectos energético e espiritual do uso de cada ambiente. 

As janelas não são simétricas e as paredes podem, por exemplo, estar colocadas em forma de trapézio, já que essa forma, acreditam, tem ligação com a liberdade e a individualidade. Para cada ambiente há soluções que levam em conta as dimensões mais sutis do ser humano. “A arquitetura orgânica tem o brilho da vida. Ela é dinâmica, tem fluidez e movimento”, diz Michael Moesch, arquiteto responsável pelo projeto de muitas casas, fábricas e escolas de inspiração antroposófica no Brasil. 

Uma pedagogia que respeita a alma 
Aos nove anos, os alunos plantam trigo, colhem, moem a farinha, preparam o pão em forninhos de barro que eles próprios fizeram. Assim, aprendem uma das lições do tema “de onde as coisas vêm”, que compõe o conteúdo nesse período. Quando aprendem a escrever, fazem o caminho do calígrafo – experimentam o lápis, a pena de ganso, a caneta tinteiro. As aulas de História falam também de lendas e mitos – como o de Atlântida, o continente que foi engolido pelas águas, citado por Platão. O violino, um dos instrumentos mais usados nas classes, estimula a área ao redor do peito – assim, as cordas fazem vibrar o coração, o que promove o despertar das emoções. “Tudo é pensado para acompanhar o desenvolvimento anímico, energético e espiritual”, explica Celina Targa, professora da Escola Waldorf Micael, em São Paulo. A escola antroposófica não é feita para pais ansiosos (a alfabetização, por exemplo, só acontece no ano em que a criança completa sete anos).Os pais são convidados a participar, e muito, de todas as atividades. “Pode até se dizer que eles se matriculam junto com o filho”, diz Celina. 

Há pouco tempo, por exemplo, um grupo de pais da Escola Micael plantou trigo, moeu, cortou a massa numa antiga máquina de madeira trazida de Santa Catarina e se deliciou com uma macarronada feita com as próprias mãos. Tudo para compartilhar do aprendizado de seus filhos. E isso não acontece de vez em quando: sempre tem. 

Espiritualidade na plantação 
Outro ramo importante da antroposofia é a agricultura biodinâmica, que, além de ser orgânica (não utiliza adubos, aditivos ou inseticidas químicos), também respeita o caráter energético e vital dos alimentos. A plantação recebe diferentes “preparados”. Há fórmulas de inspiração homeopática com base em substâncias naturais como cristal ou esterco, às quais se atribui o poder de concentrar energias. Os insetos podem ser combatidos com o cultivo de vegetais que os afugentam ou, de novo, com preparados energéticos. Os ciclos e influências planetárias também são considerados. Para completar, é comum o agricultor antroposófico ser alguém que se exercita nas artes, que faz teatro e medita. Ele é o que se pode chamar de um homem integral, tal qual sua plantação.

O resultado é previsivelmente saudável e delicioso. (Na visita à fazenda, tive o privilégio de provar o manjericão e as nozes de um notável molho de pesto, além de um iogurte sem qualquer acidez e um pão com sementes de girassol que, mesmo em quantidade, não pesou no estômago.) 

Um dos pioneiros dessa história é o gaúcho Paulo Cabrera, que administra a Estância Demétria e o Sítio Bahia, áreas de agricultura e criação biodinâmicas em Botucatu (a presença da antroposofia nessa cidade é marcante e, nos últimos 20 anos, formou-se uma grande comunidade no entorno das plantações). Assim como quase todos os professores e agricultores Waldorf, ele se especializou na Europa – no caso, o prestigiado curso de Agricultura do Emerson College, na Inglaterra. 

Ao lado de outras quatro famílias e alguns funcionários, Cabrera produz vários tipos de laticínios, pães, geléias e mel. “O mais importante é que conseguimos preservar os princípios antroposóficos na maneira de ser. Montamos peças de teatro no Natal, Páscoa e Pentecostes. E temos aulas de euritmia, que trabalha a parte emocional”, conta ele. “O sentido mais profundo do nosso trabalho é desenvolver a consciência e a espiritualidade.” 

Marco Bertalot, professor de Agricultura Biodinâmica e um dos fundadores da Estância Demétria, explica de outro jeito. “A antroposofia estimula o lado direito do cérebro, responsável pela sensibilidade e pelo pendor artístico. É uma contrapartida à sociedade atual, que leva em consideração apenas o lado esquerdo do cérebro, o da racionalidade, da objetividade.” 

Apesar de muitos princípios e crenças, a antroposofia não é dogmática, não exige comprometimento total com suas cartilhas. Também não é seita, nem clube de associados, o que a torna simpática aos novos seguidores. Ao que parece, o admirável conhecimento deixado por Rudolf Steiner está se consolidando naturalmente porque é um manancial de soluções de bom senso para todos que percebem as relações entre o Homem, o planeta e o divino. E tem mesmo muito a ver com nossas avós. “A antroposofia recupera o lado feminino”, resume Marco Bertalot. “É o lado do amor, da proteção, do cuidado.”

Luz e Paz para todos!

Márcia de Lucena Saraceni

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