Pensar no coletivo e agir no individual

Todos nós desejamos uma sociedade melhor, sem violência, sem discriminação, com mais justiça… E falamos sobre estas questões como se a solução estivesse muito distante, nos governantes, nas escolas, no vizinho… Mas, qual a parte que nos cabe nesta tarefa? A mudança pode começar em pequenas ações individuais, impulsionando uma mudança coletiva.

O texto de hoje, escrito por Geraldo Eustáquio de Souza, fala sobre estas questões tão antigas e ao mesmo tempo tão atuais.

“Alguns dos grandes problemas que a humanidade enfrenta neste avançadíssimo século XXI ainda são os mesmos que enfrentava no século X, no auge daquela atrasadíssima Idade Média. E se a gente olhar direito, vai acabar descobrindo que os grandes problemas de hoje ainda são os mesmos do século 20… Antes de Cristo!

Olhando a história recente da civilização, a gente conclui que, nos últimos 50 anos, a humanidade mexeu em tudo e não mudou praticamente nada. Vejamos:

1 – Continuamos a nos matar uns aos outros, exatamente como fazíamos há dez mil anos. Só que, em vez de paus e pedras, agora usamos armamentos ultra-mais-do-que sofisticados;

2 – Embora os governantes procurem apresentar-se sempre como modernos e progressistas, nossos sistemas de governo ainda são antigos e conservadores. O discurso é sempre de participação democrática mas, na prática, o que vale mesmo é a antiquíssima regra onde “manda quem pode e obedece quem tem juízo”…

3 – Ao contrário da política, a ciência evoluiu incrivelmente, ao ponto de conseguir decifrar o próprio código da vida. Mas nem por isso tornou-se capaz de nos proporcionar uma vida mais justa e solidária, com alimento, saúde e segurança para todos os habitantes deste planeta.

4 – Podemos falar instantaneamente com alguém distante de nós muitas horas de jato. Entretanto, no nosso dia-a-dia, ainda é complicadíssimo manter um diálogo aberto e produtivo com o nosso próprio vizinho do lado.

5 – Em vez de cuidar da casa e das crianças, as mulheres conquistaram o direito de trabalhar fora, até então privilégio exclusivo do homem. Mas o homem, por conveniência, resiste em assumir tarefas do lar que ainda considera “serviço de mulher”. Por causa disso, a maioria das mulheres que trabalham fora cumprem jornada de trabalho de quatro expedientes diários, sendo dois em casa – um, antes de saírem pela manhã e o outro depois de retornarem do trabalho, ao final do dia.

6 – A escravidão acabou, mas multidões de pessoas permanecem escravas de trabalhos forçados, que realizam sem nenhum entusiasmo, apenas em razão da própria sobrevivência ou, pior, pela compulsão de atenderem irrefreáveis estímulos para o consumo, permanentemente criados e mantidos por uma mídia onipresente na vida de todos nós.

7 – Para agravar o quadro, além de velhos “problemas de estimação” herdados do passado, novas e gravíssimas questões de “vida ou morte” estão aí, exigindo soluções de curtíssimo prazo, como o esgotamento dos recursos naturais, a poluição do meio-ambiente e o aquecimento global.

Porém o problema mais arraigado e mais difícil de ser solucionado, tanto hoje como em todas as épocas, continua sendo a aceitação da diversidade em lugar da uniformidade:

– A aprovação social da pluralidade de idéias e comportamentos em lugar do respeito cego e monótono a dogmas e tabus completamente velhos e ultrapassados, que não fazem mais nenhum sentido;

– A prática da tolerância e do respeito às diferenças individuais, em vez da repressão e marginalização dos que não se enquadram aos padrões de conduta determinados unilateralmente pela sociedade;

– A liberdade de expressão em vez da discriminação e exclusão de pessoas em função da cor de sua pele, da sua nacionalidade, idade, sexo, gênero e/ou preferência sexual, da sua ideologia política, crença religiosa, nível de renda, escolaridade ou classe social. 

O século XXI possui, em tese, as melhores condições de toda a história da humanidade para estarmos vivendo no melhor de todos os mundos. Entretanto, como coletividade, continuamos a viver no inferno de sempre. O que era pra ser o século do prazer e da celebração, tem sido apenas motivo de luto e dor. O que era pra ser o século da libertação e da inteligência, muito sutilmente tem trazido de volta a tirania da ignorância, das doutrinas fundamentalistas de toda espécie, da censura, da intolerância, do totalitarismo e seus mecanismos clássicos de tortura e repressão.

Os responsáveis por esse atraso de idéias e pela ausência de ações de mudança somos nós mesmos. Em termos coletivos,  ainda estamos muito longe de atingir um grau de crescimento pessoal suficientemente sólido e estável, que nos habilite a voar mais alto, mantendo os pés firmes no chão. Na falta desse amadurecimento pessoal e social, ou voamos sem base segura – e acabamos nos esborrachando no chão – ou permanecemos parados no mesmo lugar, completamente imobilizados por um pavor crônico de enfrentar as mudanças necessárias.

Estou convicto de que, tanto a solução dos nossos velhos problemas sociais quanto o sonhado progresso coletivo que todos desejamos alcançar só pode ser obtido mediante pequenos avanços individuais de cada um de nós, membros da grande família humana.

Desenvolvimento Social só acontece a partir do esforço pessoal de cada um para realizar o seu próprio Desenvolvimento Pessoal.”

Pense nisso!

Márcia de Lucena Saraceni

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2 comentários Adicione o seu

  1. ANDRE GIALLUISI disse:

    esse texto vem,em parte, de encontro à uma reflexão que venho fazendo sobre dois ultimos acontecimentos marcantes noticiados:o naufrágio do navio italiano costa concordia e o desmoronamento dos predios do centro do rio de janeiro.quanto ao navio ,destaco o fato de ser uma embarcação de ultima geração(o mais caro dos transatlânticos italianos),equipado com aparelhos moderníssimos;já quanto aos predios do centro do rio de janeiro,destaco a longevidade,solidez .e o que tem em comum ,tanto com o costa concordia e os predios do centro?todos mencionarão uma só situação:tragédia.mas se atentarmos bem aos fatos,refletirmos,veremos que por tras de tudo está a mão do homem.
    no caso do costa concordia,de nada adiantou toda a modernidade e tecnologia,posto que, por um ato de puro exibicionismo,vaidade,de um homem(o capitão)pois tudo a perder; já no caso dos predios do rio de janeiro,deu-se a ganãncia,ambição(evitar despesas com materiais,. licenças,profissionais especificos),e ao final de ambos os casos,vidas perdidas brutalmente.
    esses são,apenas, dois exemplos,pois temos,o tempo todo a manifestação viciada humana por tras dos fatos.
    daí que o que se infere ,é que ,declinamos dos verdadeiros valores humanos(solidariedade,compaixão,contemplação) para um tecnicismo desmedido.,de certa forma a adoração de um novo bezerro de ouro.
    portanto,a grande maquina (o homem) precisa ser transformada,diria até desenterrada.
    precisamos desenvolver ,o autoconhecimento.estarmos diante de nós mesmo,refletirmos e não agirmos instintivamente
    só assim teremos atitudes serenas,sensatas…humanas

    1. Márcia Lucena disse:

      Olá André, sua reflexão faz muito sentido. Não adianta estarmos rodeados de avanços tecnológicos se o ser humano não faz a sua parte. E que estas tragédias sirvam de lição para uma retomada de valores ao que é realmente essencial…
      Grata pela sua contribuição.
      Abs
      Márcia

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