A difícil arte de ser simples

“A simplicidade é o mais elevado grau de sofisticação”.

(Leonardo da Vinci)

Merece nossa atenção o texto de Flávio Bastos envolvendo um dos temas que, acredito, seja de fundamental importância para a evolução espiritual da espécie humana: a simplicidade.
Embora, conforme esse autor, ser simples seja uma arte difícil de realizar, não podemos pensar na impossibilidade desse ato, pois, para alguns filósofos, o possível só é realizável quando não se pensa no impossível.

Vamos à leitura.

“Por que será que habitualmente analisamos a conduta ética dos homens só pelo aspecto teológico e descartamos a fundamentação científica apoiada na natureza?

Natural é aquilo que segue a ordem regular das coisas. Ser original é ter uma postura espontânea diante da vida. Simplicidade e naturalidade são qualidades da alma que encontram-se livres do superficialismo que padroniza comportamentos e atitudes consideradas anti-naturais.

Quanto mais simples e natural for o indivíduo, mais sintonizado ele estará com a Fonte de Sabedoria Universal. Quanto mais distante da linha natural for o seu comportamento, mais atrelado ele ficará às manifestações de seu eu inferior.

O verdadeiro sábio é aquele que afirma convictamente que “nada sabe”, porque a sapiência é uma qualidade desenvolvida pelo espírito e não por valores fundamentados na superficialidade do conhecimento, na competitividade intelectual ou na vaidade.

Possivelmente, a arte da simplicidade seja a conquista mais difícil para o indivíduo, pois exige naturalidade e uma boa dose de pureza espiritual na forma como ele se relaciona consigo mesmo e como mundo à sua volta.

Geralmente, pelo fato de sermos dependentes de nossos condicionamentos mentais, não sentimos o sutil e o “leve” da nossa existência, pois a densidade de nossas percepções, ainda muito ligadas à matéria, impedem-nos de desenvolver uma visão que contemple o transcendente dentro e fora de nós.

Torna-se muito mais fácil e cômodo permanecermos vaidosos de nossa aparência e orgulhosos de nosso “status” social do que percebermos que existem à nossa disposição valores transcendentais que possuem inestimável significado para o nosso crescimento interior.
Segundo o escritor e cientista social Duane Elgin, “viver simples é ter clareza de propósito. Definir esse propósito é algo individual e irá determinar o que é relevante para cada pessoa. Dessa forma, a expressão exterior que uma vida simples irá assumir também é algo muito pessoal. Pode-se dizer que a simplicidade integra aspectos interiores e exteriores da vida, transformando-a num todo integrado e pleno de sentido”.

Ao comparar simplicidade e pobreza, Elgin registra em seu livro “Simplicidade Voluntária” que a pobreza é involuntária e debilitante, enquanto a simplicidade, que independe da condição social, é uma opção consciente e fortalecedora.

No sentido histórico, ao pesquisarmos as raízes da simplicidade, encontramos (simplicidade.net) breves referências que nos informam a respeito da visão filosófico-espiritual de épocas e culturas distintas. É o que veremos a seguir.

VISÃO ORIENTAL

Encoraja a moderação material e a abundância espiritual, valorizando especialmente a simplicidade, o desapego e a não-violência. Como exemplos podemos citar:

“Aquele que sabe possuir o suficiente é rico.” Lao Tsé.
“A civilização, no sentido real do termo, consiste não na multiplicação, mas na redução deliberada e voluntária dos desejos. Isso, por si só, proporciona felicidade e contentamento verdadeiros.” Gandhi.
“O caminho do meio… é o que proporciona a visão e a compreensão, que são os fundamentos da paz, do conhecimento, do despertar total e do Nirvana.” Buddha.

VISÃO CRISTÃ

Jesus pregou a simplicidade compassiva. Indicou, pelo seu exemplo e palavras, que devemos participar amorosamente da vida. A Bíblia enfatiza a importância do equilíbrio entre os aspectos materiais e espirituais da vida.

VISÃO DA GRÉCIA ANTIGA

Platão e Aristóteles reconheceram a importância do “meio-termo de ouro”, caracterizado pelo suficiente para atender as necessidades. Nesta visão, o mundo material não é algo fundamental em si, mas um instrumento que tem por finalidade servir para nosso aprendizado sobre o mundo mais amplo do pensamento e do espírito.

VISÃO TRANSCENDENTALISTA

Do século 19 há exemplos nas obras de R. W. Emerson e H. D. Thoreau. Acredita-se que uma presença espiritual permeia o mundo e que com uma vida de simplicidade podemos contatar com mais facilidade essa força vital miraculosa.

Retornando o foco de nossa abordagem à Duane Elgin, este define “simplicidade voluntária” como “uma maneira de viver exteriormente mais simples e interiormente mais rica, um modo de ser no qual nosso eu mais autêntico é posto em contato direto com a vida”. E completa: “Com a adoção da simplicidade voluntária passamos a depender cada vez menos de fatores externos para desfrutar de uma existência feliz. Com isso diminui o nosso medo existencial e nos tornamos seres mais amistosos, solidários e alegres”.

E sobre a sua visão de “simplicidade consciente”, Elgin é conclusivo: “vida simples não é uma nova invenção social. Seu valor foi há muito reconhecido. Nova e urgentes são as circunstâncias altamente dinâmicas do nosso mundo moderno, nos níveis ecológico, social e psico-espiritual. A simplicidade consciente, portanto, não é a negação de nós mesmos, mas uma afirmação da vida. Uma vida frugal, adotada voluntariamente, não se constitui em uma experiência “ascética” (no sentido de estrita autoridade); ela é, antes, uma “simplicidade estética” onde o padrão de consumo adapta-se com harmonia à arte prática da vida cotidiana neste planeta”.

Portanto, considerando-se o que foi visto até aqui chegamos à seguinte conclusão: a mente que aspira libertação de condicionamentos é aquela que busca a simplicidade como instrumento de evolução consciencial. E quando no indivíduo associam-se mente, intelecto e simplicidade no viver de uma forma equilibrada, o espírito se faz presente e a vida torna-se mais leve e naturalmente intensa.”

Luz e Paz

Tenório Lucena

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2 comentários Adicione o seu

  1. Julia disse:

    Adorei este texto, pois tem pessoas que não tem tanto e passam uma imagem de que é melhor em tudo, na área financeira, intelectual, sabedoria, são as chamadas ‘Sabe Tudo’, mas não conhecem a realmente a palavra Simplicidade que é doce e verdadeira, também tem pessoas que tem uma sittuação financeira muito boa e tem a virtude de ser simples. Este texto mostra realmente o valor da palavra Simplicidade, muito bom.

    1. Severino Henrique Tenorio de Lucena disse:

      Obrigado, Julia por seus excelentes comentários. Suas palavras reforçam muito bem o pensamento do autor do texto quando diz que ser simples, embora fundamental, é algo difícil de se internalizar, mas, certamente, custa muito não tentar ser.

      Tenório Lucena

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