Silêncio é bom fora do corpo e dentro da mente

Hoje em dia, mais especificamente nos centros urbanos, pode-se generalizar, sem medo de errar, que o silêncio é algo tão sutil (porque não dizer tão raro ou quase inexistente…), que passa despercebido ou praticamente esquecido.

Dia 07 de maio foi o dia do silêncio… Nós, que somos tão absorvidos pelo ruído e tão acostumados a festejos, por mais paradoxal que seja, nem sequer, ruidosamente, festejamos essa data com um ribombar de fogos…  Culturalmente, atrelamos o silêncio a algo sem vida. Lembremo-nos que nos primeiros segundos espera-se que a criança desperte para o mundo através do choro (quebra do silêncio ou simbolicamente a afirmativa que vida é ruído e silêncio é morte?).
Ruídos à parte, vejamos o que diz Gustavo Prudente, em seu interessante texto sobre a importância do silêncio fora do corpo e dentro da mente.

“Quando o ser humano lascou a primeira pedra, começou a história do ruído, que não parou de crescer mais até se tornar hoje uma das piores fontes de poluição. Os cidadãos das grandes cidades que o digam. Nos fins de semana e feriados, eles fogem para a casa de campo ou de praia, para o spa, para o retiro ou se recolhem em casa mesmo. Tudo em busca de tranquilidade e silêncio. Mas nem sempre a medida surte efeito.

Existe um tipo de silêncio, além do externo, que é pouco explorado e até mais poderoso e eficiente. É o chamado silêncio interno.

Religiosos, médicos e psicanalistas, entre outros profissionais, falam sobre essa experiência, cada um a sua maneira. Resumindo, trata-se de um estado de quietude da mente em que você “ouve” os seus pensamentos e sentimentos e também escuta os barulhos externos sem se sentir perturbado.

Fugir do burburinho da cidade, literalmente ensurdecedor, só colabora para encontrar esse silêncio interno. “Ruído tem a ver com agitação e movimento que leva para fora. Já o silêncio externo favorece a contemplação, o que ajuda a pessoa a se voltar para si mesma, dando-lhe tranquilidade e segurança”, diz Gabriela Bal, terapeuta corporal que defende na PUC-SP uma tese de mestrado sobre o silêncio.

“As pessoas têm necessidade de se aquietarem, o que implica pensarem sobre si mesmas, serem fiéis ao momento, mas elas não foram educadas para isso”, diz o escritor e rabino da Congregação Judaica do Brasil Nilton Bonder. “Nós fomos adestrados para o barulho.”

Querendo ou não, o cidadão tem de encarar, sem escolha, o barulho nos lugares mais inusitados: da TV dentro do ônibus interestadual ao rádio ou à fonte de água com motor barulhento na sala de espera do médico.

Os ruídos distraem e impedem o efeito do silêncio: descobrir e aceitar a própria singularidade. “Vivendo numa sociedade consumista, essa experiência de ser único é esmagada. O que acaba acontecendo é que parecemos e cheiramos como todos os outros”, escreve o monge beneditino inglês Laurence Freeman, em seu livro “Os Olhos do Coração – a Meditação na Tradição Cristã”.

Na busca por tranquilidade e descanso, muitos dos estressados urbanos pegam a estrada, mas levam o barulho junto – aparelho de som, TV, uma turmona de amigos. Para o psicanalista Élcio Mascarenhas, autor de uma monografia sobre a importância do silêncio no processo analítico, isso acontece porque, “quando ficamos quietos, o eco que se escuta pode ser menos agradável que o do mundo externo, então escolhemos o barulho”.

Aliás, do ponto de vista psicanalítico, sujeitos tagarelas ou que adoram ambientes barulhentos podem estar evitando o contato consigo mesmos. O medo de se ouvir existe,” mas o silêncio não é nada estratosférico”, diz Bal.

Já indivíduos metódicos que precisam de silêncio absoluto podem justamente estar sufocando um intenso turbilhão interior. “Nesses casos, o ruído externo faz lembrar o interno, detonando todas as emoções reprimidas”, diz Mascarenhas.

Por essa perspectiva, passam a ser mais compreensíveis ações como a do aposentado carioca que atirou contra adolescentes que faziam algazarra no playground de seu prédio, alegando que não suportava o barulho.

Pela ótica médica, o homem está preparado para enfrentar a maior parte dos sons da natureza. O barulho, no caso, é definido pela presença dos ruídos artificialmente produzidos – o silêncio, por sua ausência.

“A poluição sonora começou com as ferramentas de pedra, passou pelo bronze e pela pólvora até chegar à Revolução Industrial”, diz Yotaka Fukuda, professor de otorrinolaringologia da Unifesp. Porém, diz o médico, há pessoas que são capazes de se adaptarem à poluição sonora e até de alcançar momentos de silêncio, independentemente do barulho externo. O estado psicológico é que vai determinar o quanto isso é possível.

A fonoaudióloga Claudia Cotes conta que um dos seus momentos mais criativos ocorrem no congestionamento da cidade. “As pessoas me perguntam como consigo cumprir tantos trabalhos e ainda escrever livros. Minhas histórias surgem justamente quando estou no trânsito, quando fecho as janelas do carro e fico em silêncio.” Cotes é autora do livro infantil “O Som do Silêncio”, em que uma criança surda ensina para seus colegas a importância do silêncio. Uma das ideias do livro é mostrar que o silêncio não impede a comunicação. “É no silêncio que vêm os sentimentos que você pode então transformar em palavras”, diz a fonoaudióloga.

Mas hoje ainda impera a ideia equivocada de que silenciar equivale a se submeter à opinião alheia. O mundo valoriza a palavra, o posicionamento e a auto-afirmação por meio do verbo. O professor de teologia da PUC-SP Fernando Altemeyer destrói essa ideia. “O silêncio é revolucionário, e não reacionário, tanto que Gandhi fez uma revolução e resistiu aos colonizadores sem atitudes barulhentas”,diz ele.

Apatia, resignação ou escravidão são conceitos ligados à alienação, e não ao silêncio. “A pessoa silenciosa é aquela que está além das palavras”, diz o teólogo, citando um ditado: “Só se deve falar quando o que se tem a dizer é mais precioso que o silêncio”.
Para quem ainda crê que para ficar na história é preciso fazer barulho, Altemeyer conta que foi a partir do silêncio que quatro personagens notáveis fundaram as principais religiões do mundo: Moisés, Cristo, Muhammad e Buda. Para todos eles, os ensinamentos de suas doutrinas vieram à tona durante períodos de silêncio. Muhammad, por exemplo, só ouviu o Alcorão porque ele ficou quieto enquanto o arcanjo Gabriel lhe ditava dos céus. “Jesus recolhia-se periodicamente para ouvir Deus e depois pregar”, conta Altemeyer.

Silêncio tem a ver mesmo com proximidade e intimidade. “Você pode perceber que, quando queremos dizer algo muito íntimo, baixamos o tom de voz”, diz a monja Cohen, zen-budista.
O silêncio, em seu sentido filosófico, também tem sido pensado desde a Antiguidade por teóricos como o grego Pitágoras, Dionísio Aeropagita, teólogo cristão de origem incerta, e o chinês Confúcio, para quem “o silêncio é um amigo que nunca trai”.

Já o barulho pode fazer “misérias” com você.”

Luz, Paz e bons momentos de silêncio.

Tenório Lucena

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