As lições do rio

Conta Luc Ferry (filósofo francês), em seu livro ‘A Sabedoria dos Mitos Gregos’, que tudo leva a crer, reforçado pela ciência moderna, que os escritos mitológicos trazem verdades quando afirmam que as partes que constituem o Universo têm seu próprio ritmo, suas próprias características e seu espaço definido. Cada elemento de sua formação flui conforme ordenamento cósmico demarcado pelos deuses.
A Terra, por exemplo, um dos componentes da unidade universal, gira regularmente em torno do Sol completando seu ciclo em espaço de tempo de 24 horas tal nossa medida de compreensão. Não apressa nem diminui o movimento, simplesmente segue seu fluxo segundo a segundo, hora a hora…
Assim, deveria se processar toda a ordem terrestre. Para cada parte de seu todo, dada suas características peculiares, foram definidos suas formas, seus respectivos lugares e dinâmica comportamental.
Os animais, aqueles que não detêm capacidade racional, coexistem dentro de um equilíbrio natural. Diz a mitologia que suas habilidades diferenciadas promovem a possibilidade de defesa da espécie em relação às demais. Como exemplo, Ferry afirma que foram dadas “asas aos pardais para poder fugir dos predadores e aos coelhos rapidez na corrida e tocas para se esconderem em caso de perigo”. Assim, segundo a mitologia, os deuses gregos tiveram o cuidado de evitar que alguma raça se extinguisse dando os meios para escaparem das mútuas destruições.
Embora essa condição exista nas espécies animais, infelizmente, não se vê na espécie humana.
Para esses últimos, diferenciados dos primeiros pelas qualidades racionais, seu espaço cósmico está desprovido de harmonia. Apontam os mitos gregos que isso aconteceu devido essa raça, única espécie com capacidade criativa, inventiva e tendo livre arbítrio (que se assemelha a Deus e foram criados providos de amor e justiça, segundo escritos bíblicos) pecar por “egoísmo, excessos e ganância, que leva as pessoas a quererem mais do que lhes cabe e assim ignorar, ao mesmo tempo, o que elas são e em que consiste a ordem do mundo” (Ferry).
Transgredindo as leis de equilíbrio universal, o homem perdeu sua harmoniosa relação com a natureza divina. Perdeu o que Ferry chama de vida boa e define como sendo “a vida equilibrada com seu lugar natural na ordem cósmica, cabendo a cada um encontrar esse lugar e cumprir esse percurso, se quiser um dia chegar à sabedoria e à serenidade”.  (Entendendo-se por sabedoria, segundo esse autor, “o estado em que a luta contra a angústia permite aos seres humanos se tornarem mais livres e abertos aos demais, capazes de pensar por si mesmos e de amar”.)
Como encontrar esse lugar e como chegar a essa sabedoria e serenidade passa a ser o grande desafio da humanidade.
Vejamos no texto de hoje, de autoria desconhecida, as lições que o rio tem a nos ensinar.

“O rio corre sozinho, vai seguindo seu caminho. Não necessita ser empurrado.
Para um pouquinho no remanso. Apressa-se nas cachoeiras. Desliza de mansinho nas baixadas. Precipita-se nas cascatas. Mas, no meio de tudo isso vai seguindo seu caminho.
Sabe que há um ponto de chegada. Sabe que seu destino é para frente.
O rio não sabe recuar. Seu caminho é seguir em frente.
É vitorioso, abraçando outros rios, vai chegando no mar. O mar é sua realização. É chegar ao ponto final. É ter feito a caminhada.
É ter realizado totalmente seu destino.

A vida da gente deve ser levada do jeito do rio. Deixar que corra como deve correr.
Sem apressar e sem represar. Sem ter medo da calmaria e sem evitar as cachoeiras.
Correr do jeito do rio, na liberdade do leito da vida, sabendo que há um ponto de chegada.
A vida é como o rio.
Por que apressar?
Por que correr se não há necessidade?
Por que empurrar a vida?
Por que chegar antes de se partir?
Toda natureza não tem pressa. Vai seguindo seu caminho. Assim também é a árvore, assim são os animais.
Tudo o que é apressado perde o gosto e o sentido. A fruta forçada a amadurecer antes do tempo perde o gosto. Tudo tem seu ritmo. Tudo tem seu tempo.
E então, por que apressar a vida da gente?
Desejo ser um rio.
Livre dos empurrões dos outros e dos meus próprios. Livre da poluição alheia e das minhas.
Rio original, limpo e livre. Rio que escolheu seu próprio caminho.
Rio que sabe que tem um ponto de chegada. Sabe que o tempo não interessa.
Não interessa ter nascido a mil ou a um quilômetro do mar.
Importante é chegar ao mar. Importante é dizer “cheguei”. E porque cheguei, estou realizado.
A gente deveria dizer: não apresse o rio, ele anda sozinho.
Assim deve-se dizer a si mesmo e aos outros: não apresse a vida, ela anda sozinha.
Deixe-a seguir seu caminho normal.
Interessa saber que há um ponto de chegada e saber que se vai chegar lá.

É importante ressaltar que somos a única espécie com poder e capacidade de autodestruição. É fundamental, então, que retornemos ao equilíbrio da espécie com a natureza integrada, fazendo cada um a sua parte, respeitando a si e aos demais e fluindo pela vida harmoniosamente até o “ponto de chegada” determinado pela ordem do Universo.
Pensemos seriamente nisso e nos esforcemos para ser e viver à semelhança do rio.

Luz e Paz.

Tenório Lucena

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