Pelos caminhos do nosso olhar

Tempo de travessia

A travessia é um longo trecho de caminho, e, segundo Eugenio Mussak, “faz parte da vida e são muitas as que temos que cruzar para chegar sempre ao mesmo lugar”.

Hoje trazemos uma parte do artigo do autor, que nos leva a refletir sobre nossa vida e pelo nosso olhar.

Ótima leitura.

“O olho, para ver o mundo, não pode ver a si mesmo, tem que ser transparente”, disse Rubem Alves. De fato, nós vemos o mundo através de nosso olho. O olhar, então, é uma travessia, que liga nosso cérebro a cada objeto do mundo, a cada cor, flor, árvore, sorriso, paisagem. Como também atravessa o espaço e nos faz perceber o feio, a miséria e a injustiça contida nas atitudes de alguns humanos.

Então é necessário que não vejamos o olho para podermos ver o mundo. Só vemos nosso olho quando ele fica opaco pela doença ou pela velhice. E então não vemos mais o mundo. Olhar através é uma dádiva, uma aventura com cor e significado.

Rubem Alves, com todo seu pensamento poético da vida, vai além, e nos relaciona com o sublime. “Ninguém jamais viu Deus”, diz. “Para que possamos ver através dele”.

Talvez esta seja a explicação para aquela imagem de Deus que encontramos em alguns lugares: um olho dentro de um triângulo. Sempre achei que aquele olho significava que Deus estava me olhando, vigiando meus atos, fiscalizando até meus pensamentos. E tinha medo. Hoje não tenho mais. Acredito que aquele olho simboliza a travessia do olhar sobre a vida. Deus é amor, acreditamos. E olhar o mundo através do olhar amoroso faz com que o mundo fique, ele mesmo, mais amoroso. Um lugar melhor para se viver a vida.

A simbologia da travessia não tem fim. O poeta libanês Khalil Gibran, em um de seus melhores momentos escreveu: “Teus filhos não são teus filhos. São filhos e filhas da vida. Não vieram para ti, vieram através de ti…” Vieram através de ti… através. De acordo com o poeta, cada pai e mãe compõe a travessia do filho para a aventura do viver.

O bom das travessias é a imensidão de suas possibilidades. Enquanto os destinos são pontuais, únicos, as travessias podem ser infinitas. Se formos duas vezes ao mesmo lugar, provavelmente lá encontraremos as mesmas coisas.  Mas o trajeto não foi igual. A casa e o escritório são os mesmos, a maior parte do tempo. Mas as ruas que os separam jamais são as mesmas, ainda que não nos demos conta, pois o que interessa é o destino, e costumamos ter pressa.

Heráclito disse que não se pode banhar no mesmo rio duas vezes. O rio passa, a água é outra, e você também é outra pessoa. Da mesma forma, cada travessia é única, e essa é a razão principal de sua beleza. A surpresa é bela e excitante. Mas é necessário ter o espírito aberto, senão a imagem e a experiência não se renovam, e temos a impressão de que já atravessamos exatamente a mesma ponte antes.

Quando temos a impressão de que os dias se repetem, que a vida não tem mais novidades, que a monotonia nos assalta, estamos precisando de uma travessia. Mas não é necessário atravessar o mar ou as montanhas. Se for possível, ótimo, mas na maior parte das vezes que nossa alma se aborrece, basta que lancemos um novo olhar sobre nossa vida.

A travessia do olhar talvez estivesse interrompida pelo calo do desinteresse, da desatenção e do desamor. Quando perdemos o interesse pelo que fazemos ou pelas pessoas com quem convivemos, paramos de dar atenção e o amor se esvanece.

A vida é uma grande travessia, sem dúvida, e não podemos perder a oportunidade de aproveitar a paisagem, senão, quando estivermos chegando ao destino que nos espera a todos, teremos rancor e remorso. Rancor do mundo, que não nos compreendeu, e remorso de nós mesmos, pois também não nos esforçamos em compreender a vida que vivemos e não encontramos sua beleza oculta.

Quando Júlio César resolveu enfrentar a travessia do Rubicão, sabia que não tinha volta. Ou conquistava Roma ou seria destruído pelo exército de Pompeia, que então dominava a cidade. Foi quando ele disse: “Alea jacta est”, ou a sorte está lançada. Tratava-se de uma travessia em sentido único, sem volta. Com cada um de nós também é assim, nascemos e a sorte está lançada. E já que viemos… e vimos… só nos resta aproveitar a travessia.

Um novo olhar: uma nova vida.

Tenório Lucena

Fonte: Revista Vida Simples, fevereiro 2013, ed. 128.  

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