Equilíbrio e Harmonia

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Hoje trago um texto de minha autoria, uma breve narrativa que nos ajuda a  refletir sobre a busca pelo equilíbrio e harmonia.

Vamos à leitura?

Sabedoria nas palavras de um mestre

Pedro Michepud Rizzo

Sentado no centro de um grande tatame, bem no centro do símbolo Yin-Yang desenhado no chão, o mestre de Kung Fu e Tai Chi Chuan, Hikari no miko está terminando sua meditação diária. Ele mantém seus olhos levemente abertos, pousando seu olhar em um ponto que parece não estar presente naquele ambiente.

Cerca de 15 minutos depois, ele retorna de seu mundo particular, direcionando seu olhar à mim e me chamando para perto dele. Seu semblante transmite paz e serenidade e seu olhar é calmo como o leito de um lago. Eu me movo, adentrando o tatame, mas antes tiro meu sapato e faço uma leve reverência ao local, inclinando meu tronco.

– Seja bem vindo – disse ele, servindo uma pequena xícara de chá – espero que você se sinta em casa ao visitar essa academia.

Mestre Hikari é conhecido nome no meio da espiritualidade, sempre aplicando seus esforços para transmitir mensagens cujos temas se relacionam diretamente com o corpo, o equilíbrio e o poder evolucionário da mente humana. Além disso, constantemente busca renovar seus conhecimentos acerca da saúde e do bem estar, pesquisando e se encontrando com pessoas que tem uma mente aberta para o debate e a busca pelo autoconhecimento.

O ambiente da academia, plenamente equilibrado, é composto por armas de suas práticas marciais e leves e delicados objetos de decoração. A harmonia parece transbordar pelas paredes, transmitindo uma tranquilidade ímpar e profunda.

Ao ver meu rosto divagando pelo local, o mestre me interpela:

– Interessante, não? Tomamos cuidado com cada detalhe aqui, para que a energia continue fluindo harmonicamente. E o mesmo pode ser aplicado a nós. Afinal, também somos energia, disse. – Devemos buscar o caminho do meio. Nós temos a tendência de vivermos os extremos: muita felicidade, ou muita tristeza, muito amor, ou muito ódio. O ideal é buscarmos o caminho em que somos plenos e felizes sem nenhuma exacerbação ou exagero. – concluiu.

Após uma breve pausa para degustar o último gole do chá, ele levanta-se e me convida para uma leve prática de uma arte marcial própria, que mistura toda sua experiência e sabedoria.

Os movimentos, nunca por mim experimentados antes, me fazem abrir um leve sorriso. Então o mestre pára e, em um tom de voz sereno, porém rígido, comenta comigo: – Se você continuar a forçar sua musculatura, seu corpo vai acabar desequilibrado. Lembre-se de ser como o bambu, que com sua flexibilidade sobrevive aos piores ventos existentes. Muito duro ou muito mole nada mais são que o desequilíbrio.

Neste momento, o sensei olha no fundo de meus olhos, e diz, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando:

            – As pessoas, principalmente no mundo Ocidental, não sabem aonde estão se metendo. O culto ao corpo, dessa maneira desequilibrada, pode levar à loucura.

            – Então, como é no Oriente? – não hesito em perguntar.

            – No Oriente, eles veem um pouco além. A maioria de lá busca algo que pode ser traduzido como a busca pelo bem-estar. Lá eu pude ver o verdadeiro significado da prática esportiva, onde a competição não existe e as pessoas buscam na prática de atividades físicas o pleno equilíbrio. Lá é comum ver pessoas em praças brincando com bolas, fitas, raquetes e praticando o Tai Chi (Chuan), buscando unir a mente, o corpo e a alma estão equilibrados e fortificados em si mesmo.

            Nossa conversa, então, é interrompida pelo toque de seu celular. Sua secretaria acabara de lembrá-lo de uma palestra que ele aplicaria dali alguns instantes. Ele me pede licença, me convidando a ir assisti-lo para poder ter uma maior noção sobre o assunto que estávamos discutindo.

No local, ele se depara com cerca de cem engravatados que, estressados e berrando ao celular, já que o dólar havia caído e os seus negócios corriam algum risco de desvalorizar, pareciam não estar ali para assistir a uma palestra. Porém, ao iniciar do evento, todos respeitosamente desligaram seus celulares, buscando algo além de seu dia a dia acelerado.

Eu me sento ao fundo do auditório, ouvindo as palavras ditas e observando atentamente a reação dos ouvintes. O mais comum era um expressões de espanto e desconfiança, já que palavras como chi (energia vital) e equilíbrio vital não são usuais no dia a dia de um executivo.

Em certo ponto, o telão ao fundo do auditório passa a mostrar um vídeo reunindo alguns dos conceitos e eu observo, admirado, como os empresários olham para aquilo com olhos desconfiados, mas firmes e prontos para absorver maiores conhecimentos.

            Mestre Hikari, então, retoma a fala, finalizando sua apresentação e abrindo a palestra para questionamentos. Depois de várias perguntas um dos executivos faz a última pergunta da noite, com um tom cético e arrogante:

            – Acredito em tudo isso que você diz. Mas na teoria tudo é muito lindo. Como transformar isso tudo em prática?

            O mestre então suspira, dizendo que havia descoberto essa resposta em uma visita que fizera a um mosteiro Shaolin na China.

            “Lá eles comem quando tem fome, dormem quando tem sono e trabalham o corpo e a mente de modo a deixá-los sempre centrados. E eu me admirei muito com aquilo, já que meus anos no caminho do autoconhecimento pareciam naquele momento apenas um minúsculo passo. E o mais legal é que só fui perceber o porquê daquilo tudo quando vi um dos escritos nas paredes do templo:

– Não apenas olhe, mas veja a verdade
– Não apenas toque, mas sinta a essência da vida
– Não apenas ouça, mas escute seu eu interior

– Não apenas memorize, mas viva o Tao

            A partir daquele instante me senti como um bebê, com um caminho totalmente inexplorado e inusitado à minha frente; que desejo trilhar durante toda a minha vida”.

            Os engravatados então levantam-se, aplaudindo de pé aquelas breves palavras. Muitos olhavam estáticos e perplexos, em interessante e profunda meditação. O mestre havia saído do local, deixando um último slide ao fundo. As palavras eram simples, mas sua essência muito profunda:

As três essências da vida
Mente – Espírito – Corpo

Deixe tua mente te guiar
Deixe teu espírito te iluminar
Deixe seu corpo te proteger

E assim, encontre sua verdade o seu caminho, sua essência, que guiará seus passos por toda sua vida.

             E eu, emocionado, retiro-me do local, reverenciando uma última vez as palavras e o mestre com uma leve inclinação do tronco, levando suas palavras em meu coração, em meus pensamentos e em minhas ações.

Uma ótima semana a todos,
Namastê,
Pedro Michepud

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