Pokémon Go e o Excesso de Faltas…Vale refletir!

Para refletir… no mínimo! O que esse tal de Pokemon Go transparece? O que ele significa para uma sociedade? Numa escala maior, penso eu que essa fuga desequilibrada da realidade apenas afasta a famosa ‘geração cristal’ do seu propósito de despertar a si mesmo e ao mundo… muitas reflexões, muitas respostas em aberto…vale pensar.

Deixo vocês com a reflexão de Denis Matos. Boa leitura!

Amor, luz e consciência. Sempre.

Cíñtia Rizzö

Pokémon Go e o nosso Excesso que transparece a falta

Algumas pessoas têm o jogo Pokemon GO no celular. Eu tenho Angry Birds 2. Gosto de Angry Birds e de perder tempo com ele eventualmente. Também gosto de música em vinil e de perder horas com o encarte na mão enquanto o disco está em contato com a agulha e o cigarro me faz companhia. Gosto de passar a mão no pescoço dos meus gatos, sentado no sofá, e ficar vendo as caras de deleite que eles fazem e seguem reproduzindo mesmo depois de horas ao serem acariciados. Gosto de fazer palavras cruzadas nível médio – às vezes até me aventuro nas de nível difícil.

Num momento cultural e social em que a perda de tempo é uma aridez só, dá gosto por o tempo a perder. Ou melhor, dá gosto por o tempo a ganhar, porque esses pequenos vazios de ócio são presentes, e não perdas.

No fundo todo mundo gosta de coisas idiotas, sem sentido, sem critério, simplesmente gosta e dedica tempo a elas.

O problema de jogarmos Pokemon GO não está em gostar do jogo, nem no jogo em si, nem em perder algum tempo com ele, nem em quantos monstrinhos você conseguiu – ou não! – capturar, nem no fato de a realidade virtual ser uma ilusão coletiva (como se as realidades concretas não se constituíssem de delírios e invenções também).

O problema está em nos fazermos disponíveis a todo e a qualquer momento para um jogo. Está em não perdermos algum tempo, e sim todo o tempo. Está nas chatices da repetição, do frenesi coletivo, do assunto que toma a pauta das poucas interações pessoais que se tem, da competição abobada por caçar qualquer coisa vazia que dê sentido a um dia a dia sem sentido.

Tem gente na praça, no supermercado, no restaurante, em monumentos históricos, dentro de casa, no churrasco dos amigos, na lanchonete perto da firma. Tem história de gente que se machucou, que morreu, que brigou com o namorado, que esqueceu de dar comida para o filho. Tem também história de gente que se divertiu, que riu, que compartilhou, que conseguiu fazer o boneco virtual do Pokemon crescer um monte e por aí vai.

Tem também a Nintendo, que do obscurantismo dos últimos anos viu suas ações saltarem mais de 80% desde o lançamento do aplicativo, com uma receita de quase US$ 4 bilhões num único ano e a superação de pérolas do mundo dos games como Candy Crush.

Não tem a ver com a franquia Pokemon GO ou com a inovação tecnológica da realidade aumentada ou com nada disso. Tem a ver com o processo de “gameficação social” ou, em estrito rigor, com a “trans-gameficação”.

É bem simples: a constante sensação de depreciação da realidade cotidiana faz com que ansiemos por uma transformação – ainda que simbólica – da vida em jogo ou em qualquer coisa mais lúdica. Por quê? Porque a realidade é complexa, eventualmente triste, vazia, repetitiva, desgastante; e precisamos inventar sentido a ela, “diverti-la”.

Venho me perguntando o que temos escolhido para nos divertir. E divertir-se não é algo tão simples assim. Porque a diversão vem amarrada ao mito da alegria, que tem a ver com felicidade. E felicidade é completude. E completude é gozo: o gozo simbólico da transcendência e do sobre-humano – porque não há nada de completo em ser um ser humano.

Há sim a repetição e a busca por uma sensação inventada de que algo se completou. Busca demasiada humana. E se repetir e repetir e repetir e repetir uma vez mais, mesmo que seja jogando no Pokemon GO, pode siderar esta busca, então eu repito.

Não é tão fácil assim sair da prática da repetição, das mesmas figuras batidas e compulsivamente gastas – e por isso uma figura nova, mesmo que virtual e imagética, converte-se em uma chance de eu repetir com alegria nova, com outro gosto da diversão.

Diversão, aliás, como explica a etimologia da palavra, que é aquilo nascido do passatempo, da desconexão, do desvio de atenção, da distração. Diversão que também é termo militar, é a ideia de distrair o inimigo enquanto se prepara um ataque a outro ponto.

Grosso modo, nos estão distraindo por algo. Grosso modo, quando assumimos que a vida é um jogo, em vez de seres humanos responsáveis por nossos atos nos tornamos jogadores e coadjuvantes do nosso próprio jogo. Grosso modo, quando nos tornamos jogadores a vida se converte em farsa, em revolução da realidade.

Nenhum jogo é neutro, e isso é importante para agora. E qualquer jogo é uma ferramenta: pode ensinar, educar, viciar, propagar, emburrecer. Qualquer jogo pode condicionar a realidade e, condicionada, não há consciência humana que não se atrofie.

Este e outros tantos transtornos ou sintomas de nosso tempo nada mais são do que resultados de nossa incapacidade de aprofundar as coisas. E entenda-se aqui aprofundar no sentido de não conseguir envolver-se, de não conseguir tocar algo de fato, de não conseguir conectar-se de forma verdadeira e presente.

Com a tecnologia, a coisa vai na contramão: não é que não estamos tocando nada e por isso não temos capacidade de aprofundar. O que ocorre é o contrário: tocamos muito e não conseguimos em realidade aprofundar nada – mesmo que sigamos estafados por ter feito muito de nada.

O Pokemon GO é só mais um desses nossos grandes excessos que transparecem a falta.

Dênis Matos

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